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Gramática

O acusativo em esperanto (-n): guia completo

Uma letra com cinco funções: aprenda onde o -n entra e, tão importante quanto isso, onde ele nunca entra.

Atualizado: 8 min de leitura

O acusativo do esperanto é a terminação -n. Sua função principal é marcar o objeto direto, a pessoa ou a coisa sobre a qual o verbo age: Mi vidas la katon – “Eu vejo o gato”. Ele também indica direção (en la domon – “para dentro da casa”), datas (lundon – “na segunda-feira”) e medidas (du horojn – “por duas horas”).

O esperanto tem apenas dois casos, a forma básica e o acusativo; qualquer outra relação usa uma preposição (regra 2). Para quem fala português, o -n faz o trabalho que o português entrega à posição na frase e aos pronomes o, a, lhe (veja a seção sobre o português mais adiante).

O PMEG explica assim: numa frase em esperanto, uma preposição ou a terminação -n mostra a função de uma palavra, e um substantivo sem nenhuma das duas costuma ser o sujeito (ou, depois de esti, descreve o sujeito). Por isso o -n diz “isto não é o sujeito” onde nenhuma preposição já diz isso: em La katon vidas la hundo – “O cachorro vê o gato”, la katon não pode ser o sujeito, esteja onde estiver.

As cinco funções do -n

FunçãoExemploTradução
Objeto diretoMi legas libron.“Eu leio um livro.”
Direção (para onde)Ŝi iras en la parkon.“Ela entra no parque.”
Momento (quando)Ni venos lundon.“Nós viremos na segunda-feira.”
Medida (quanto tempo, quanto)Ĝi kostas dek eŭrojn.“Custa dez euros.”
No lugar de je (raro)Mi ridas lian naivecon.“Eu rio da ingenuidade dele.”

Quais palavras recebem -n

A terminação vai nas palavras que nomeiam ou descrevem uma coisa, sempre depois do -j:

Tipo de palavraForma básicaCom -n
Substantivokato, katojkaton, katojn
Adjetivogranda, grandajgrandan, grandajn
Pronome pessoalmi, li, ilimin, lin, ilin
Possessivomiamian
Correlativo em -u, -a, -okiu, tia, tiokiun, tian, tion
Palavra de lugar (só direção)hejme, tie, kiehejmen, tien, kien

Nunca recebem -n: os verbos, o artigo la, as preposições, as conjunções, os numerais como du ou tri e os correlativos terminados em -el, -am, -om, -al, -es (kiel, kiam, kiom, kial, kies). Por isso se diz Mi havas du katojn – “Eu tenho dois gatos”, e nunca dun katojn.

1. O objeto direto

O objeto responde à pergunta “quem?” ou “o quê?” depois do verbo. Como o -n o marca, a ordem das palavras pode mudar sem mudar o sentido; pôr la katon em primeiro lugar só desloca a ênfase. Passar o -n para la hundon muda quem mordeu quem:

La hundo sujeito mordis verbo la katon objeto direto

La katon objeto direto mordis verbo la hundo sujeito

O cachorro mordeu o gato.

La kato sujeito mordis verbo la hundon objeto direto

O gato mordeu o cachorro.

Em português, só a posição distingue “O cachorro mordeu o gato” de “O gato mordeu o cachorro”. Para destacar o gato, é preciso mudar a construção (“O gato foi mordido pelo cachorro” ou “O gato, o cachorro mordeu”). O esperanto simplesmente move a palavra.

Tudo o que descreve o objeto também recebe -n: Mi aĉetis tiun belan ruĝan aŭton. – “Eu comprei aquele lindo carro vermelho.” Veja substantivos e adjetivos e pronomes.

Objetos que não podem receber -n

Infinitivos, orações com ke – “que” e citações não têm lugar para uma terminação. O papel delas fica claro de qualquer modo:

  • Mi volas dormi. – “Eu quero dormir.”
  • Mi scias, ke vi venos. – “Eu sei que você virá.”

Cumprimentos e agradecimentos

Muitas frases do dia a dia terminam em -n: Saluton! – “Olá!”, Dankon! – “Obrigado!”, Bonan tagon! – “Bom dia!”, Bonvenon! – “Bem-vindo!”. Elas são objetos de um verbo que ficou subentendido: (Mi deziras al vi) bonan tagon – “(Eu lhe desejo) um bom dia”. Em português “Bom dia!” e “Boa noite!” também são frases elípticas, só que sem marca de caso. Mais em cumprimentos.

2. Direção: para onde

Depois de uma preposição de lugar, o -n transforma “onde” em “para onde”:

Posição (sem -n)Movimento (com -n)
en la domo – “dentro da casa”en la domon – “para dentro da casa”
sur la tablo – “sobre a mesa”sur la tablon – “para cima da mesa”
trans la rivero – “do outro lado do rio”trans la riveron – “para o outro lado do rio”
antaŭ la domo – “em frente à casa”antaŭ la domon – “(indo) para a frente da casa”

A diferença importa: La kato saltas sur la tablo – “O gato está pulando (para cima e para baixo) sobre a mesa”, mas La kato saltas sur la tablon – “O gato pula para cima da mesa”.

lugar (onde?)

La kato saltas sur la tablo.

O gato está pulando (para cima e para baixo) sobre a mesa.

direção (para onde?)

La kato saltas sur la tablon.

O gato pula para cima da mesa.

O português faz uma distinção parecida com em e a/para (“Estou na casa” e “Vou à casa”) e, na norma culta, com onde e aonde. O esperanto usa o mesmo par de preposições para os dois casos e acrescenta o -n ao movimento: Kie vi estas? – “Onde você está?”, Kien vi iras? – “Aonde você vai?”. Na fala informal brasileira, aliás, ouve-se “vou no mercado”, com em para o destino, muito perto de iri en la merkaton.

Só as preposições que também podem indicar um lugar recebem este -n: en, sur, sub, antaŭ, apud, inter, trans e outras. Al “a, para”, el “de dentro de”, de “de, desde” e ĝis “até” nunca indicam um lugar e por isso nunca recebem -n. Diga Mi iras al la urbo – “Eu vou à cidade”, e não al la urbon. O -n de direção sempre expressa movimento em direção a um lugar, nunca um movimento de afastamento (PMEG). A lista completa está em preposições.

Advérbios e correlativos de lugar recebem -n para indicar direção, sem preposição alguma: hejmen – “para casa”, supren – “para cima”, tien – “para lá”, Kien vi iras? – “Aonde você vai?”. Um nome de lugar também pode fazer isso (Mi veturos Parizon – “Viajarei para Paris”, do Ekzercaro do Fundamento), mas segundo o PMEG esse -n sozinho quase só se usa na prática com nomes de cidades e países, quando se entra no lugar, e hoje é muito raro, quase arcaico; o normal é al Parizo.

A direção também pode ser figurada, para uma mudança de estado: La sorĉisto ŝanĝis la princon en ranon. – “O feiticeiro transformou o príncipe em sapo.”

3. Tempo: quando

Uma expressão de tempo com -n e sem preposição diz quando algo acontece:

  • lundon – “na segunda-feira”
  • la 5-an de Majo – “no dia 5 de maio”
  • ĉiun tagon – “todos os dias”
  • unu tagon – “um dia”

O mesmo sentido é possível com preposição: en la sama tago = la saman tagon – “no mesmo dia”. Para as horas do relógio use je: je la deka – “às dez horas”, enquanto la dekan significa “no dia dez” (do mês).

4. Medida: quanto tempo, que distância, quanto

O -n também dá duração, distância, preço, peso e idade:

  • Mi dormis ok horojn. – “Eu dormi oito horas.”
  • Ni marŝis dek kilometrojn. – “Nós caminhamos dez quilômetros.”
  • La libro kostas dek eŭrojn. – “O livro custa dez euros.”
  • Li estas dudek jarojn aĝa. – “Ele tem vinte anos.”

Para a duração também serve dum – “durante”: dum ok horoj.

Atenção a dois hábitos do português. Para duração, dizemos “por oito horas”, mas o por do esperanto significa “para” (finalidade): não existe por ok horoj nesse sentido. E para a idade o português usa “ter” (“tem vinte anos”), enquanto em esperanto havi não serve: diga Li estas dudek jarojn aĝa ou Li estas dudekjara.

5. No lugar de je

A regra 14 permite o -n no lugar da preposição sem sentido je: Mi ridas je lia naiveco = Mi ridas lian naivecon. O PMEG observa que isso é bastante raro hoje e que os falantes preferem uma preposição clara.

O acusativo para quem fala português

O português não tem casos nos substantivos, mas distingue o objeto direto do indireto nos pronomes átonos (o, a, os, as e lhe, lhes) e tem verbos que exigem uma preposição fixa. O esperanto pede o contrário: um -n para o objeto direto e al para o destinatário.

PortuguêsEsperantoO que acontece
Eu a vi.Mi vidis ŝin.O pronome átono vira uma palavra independente, com -n.
Eu lhe dei o livro.Mi donis la libron al ŝi.Objeto indireto: al, sem -n.
Eu gosto de café.Mi ŝatas kafon.Ŝati leva objeto direto, sem preposição.
Eu preciso de ajuda.Mi bezonas helpon.Idem para bezoni.
Eu me lembro do nome.Mi memoras la nomon.Idem para memori.
Eu espero o ônibus.Mi atendas la buson.Atendi é “esperar, aguardar”, e não “atender”.
Eu pego o ônibus.Mi prenas la buson.Preni é “pegar, tomar”, e não “prender” (“prender” é aresti).

Por isso são comuns entre brasileiros e portugueses erros como Mi ŝatas de kafo ou Mi bezonas de helpo, calcados em “gostar de” e “precisar de”.

Quando não usar -n

A maioria dos erros acontece aqui. Deixe de lado o -n nestes casos:

  1. Depois de esti, iĝi e ŝajni. A palavra que vem depois descreve o sujeito; não é objeto. Mi estas instruisto. – “Eu sou professor.” Ŝi iĝis kuracisto. – “Ela virou médica.”
  2. Quando o sujeito vem depois do verbo. Hieraŭ okazis grava afero. – “Ontem aconteceu algo importante.” Com okazi – “acontecer”, manki – “faltar”, resti – “restar” e aperi – “aparecer”, o sujeito costuma vir por último. Em português isso é normal (Chegou uma carta) e leva a pôr um -n por engano: Alvenis letero, e não Alvenis leteron.
  3. Depois da maioria das preposições. kun mia amiko – “com meu amigo”, pri la libro – “sobre o livro”. Só a direção depois de uma preposição de lugar recebe -n.
  4. Para o resultado ou a descrição do objeto. Mi farbis la pordon verda. – “Eu pintei a porta de verde.” Compare com Mi farbis la verdan pordon. – “Eu pintei a porta que é verde.”
  5. Para o objeto indireto. Use al: Mi donis libron al ŝi. – “Eu dei um livro a ela.”

Erros comuns

ErradoCertoPor quê
Mi vidas la kato.Mi vidas la katon.O objeto precisa de -n.
Mi vidas bela katon.Mi vidas belan katon.O adjetivo copia o -n.
Mi havas du katonj.Mi havas du katojn.O -j vem antes do -n.
Mi iras al la urbon.Mi iras al la urbo.Al já significa “a, para”.
Mi estas en la domon.Mi estas en la domo.Não há movimento, logo não há -n.
Okazis akcidenton.Okazis akcidento.É o sujeito, não o objeto.
Mi donis ŝin libron.Mi donis al ŝi libron.Quem recebe leva al.
Mi ŝatas de kafo.Mi ŝatas kafon.“Gostar de” não tem equivalente com preposição.
Mi dormis por ok horoj.Mi dormis ok horojn.Por significa “para”; a duração leva -n ou dum.

O acusativo e a ordem das palavras

Como o objeto leva -n, as seis ordens possíveis de sujeito, verbo e objeto são gramaticais: Petro amas Marian, Marian amas Petro, Amas Petro Marian e assim por diante. A ordem neutra é sujeito–verbo–objeto, como em português.

Colocar o objeto em primeiro lugar dá ênfase: Kafon mi ne trinkas, sed teon mi ŝatas. – “Café eu não bebo, mas chá eu aprecio.” Se um objeto não puder receber -n, como um nome estrangeiro, mantenha a ordem neutra. Mais em ordem das palavras.

Verificação rápida: -n ou não

  1. Movimento em direção a um lugar depois de en, sur, sub e semelhantes? Acrescente -n.
  2. Objeto do verbo (que não venha depois de esti, iĝi, ŝajni)? Acrescente -n a ele e a todas as palavras que o descrevem.
  3. Uma data ou medida sem preposição? Acrescente -n.
  4. Qualquer outra coisa depois de uma preposição? Sem -n.

Perguntas frequentes

O que é o acusativo em esperanto?

É a terminação -n, acrescentada a substantivos, adjetivos, pronomes e alguns correlativos. Ela marca o objeto direto e também a direção, as datas e as medidas.

Por que os cumprimentos em esperanto terminam em -n?

São frases abreviadas. Bonan tagon! corresponde a (Mi deziras al vi) bonan tagon – “(Eu lhe desejo) um bom dia”, de modo que o cumprimento é o objeto de um verbo subentendido.

Usa-se -n depois de preposições?

Normalmente não: kun mi – “comigo”, al la urbo – “à cidade”. A exceção é a direção depois de uma preposição de lugar como en, sur ou sub: en la domon – “para dentro da casa”.

O adjetivo também recebe -n?

Sim. Todo adjetivo, possessivo e correlativo que descreve o objeto recebe -n: Mi perdis mian novan telefonon. – “Eu perdi meu celular novo.”

Fontes

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