Esperantopedia

Sobre o esperanto

Homaranismo: o que é a filosofia humanista de Zamenhof

A filosofia que Zamenhof chamou de objeto de toda a sua vida e manteve, de propósito, separada do esperanto.

Atualizado: 7 min de leitura

Homaranismo (em português, a Wikipédia o traduz como “humanismo” ou “humanitarismo”; em inglês, Humanitism) é a filosofia de L. L. Zamenhof sobre povos iguais, uma língua neutra e uma regra comum: trate os outros como você quer ser tratado. Nasceu do Hilelismo, publicado em 1901 sob o pseudônimo Homo sum, e recebeu esse nome em 1906. Zamenhof o chamou de objeto de toda a sua vida, mas o manteve separado do esperanto, e o movimento esperantista, neutro desde a Declaração de Boulogne (1905), nunca o adotou. Nenhum movimento se formou, e o congresso que ele planejou para o homaranismo nunca aconteceu.

O que significa homaranismo?

A palavra é hom·ar·an·ism·o: homaro “humanidade”, -an- “membro”, -ism- “doutrina” – veja sufixos. Um homarano é um membro da espécie humana e, no sentido de Zamenhof, um seguidor da doutrina. O Reta Vortaro chama homaranismo de projeto de Zamenhof de uma religião neutra, continuação do Hilelismo. Note que homo quer dizer “ser humano”, e não “homem” no sentido de sexo masculino, que em esperanto é viro; o português junta os dois sentidos em “homem”. Na tabela, as pronúncias usam as letras do português brasileiro, com a sílaba tônica em maiúsculas.

EsperantoPronúncia (para brasileiros)Significado
homaroho-MA-rôhumanidade, gênero humano
homaranoho-ma-RA-nômembro da humanidade; seguidor da doutrina
homaranismoho-ma-ra-NIS-môa doutrina de Zamenhof
Hilelismohi-le-LIS-môo precursor de 1901, do sábio Hilelo (Hilel)

De onde veio o homaranismo?

Em 1901 Zamenhof publicou um livro em russo, Hilelismo (“Hilelismo: um projeto de solução da questão judaica”), assinado Homo sum, em latim “sou um ser humano”. Hilel foi um sábio da época do rei Herodes que resumiu a Lei assim: não faça aos outros o que é odioso para você. Segundo o biógrafo Aleksander Korĵenkov, Zamenhof propunha uma pequena comunidade judaica com uma religião purificada, livre de regras étnicas, que usaria o esperanto no ensino e no culto. A ideia despertou pouco entusiasmo entre os judeus russos.

O primeiro Congresso Mundial de Esperanto mudou o plano dele. Em agosto de 1905, uma multidão de 688 pessoas de cerca de 20 países passou uma semana falando apenas esperanto, e Zamenhof concluiu que a ideia podia funcionar para todos. A agitação na Rússia o levou então a publicar antes do congresso seguinte.

DataO que aconteceu
Janeiro de 1906Dogmoj de Hilelismo (“Dogmas do Hilelismo”), doze pontos, impresso anonimamente na Ruslanda Esperantisto
1906 (março, segundo Korĵenkov)O folheto Homaranismo, anônimo, São Petersburgo: quase o mesmo texto, com novo nome e novo prefácio
1912No oitavo Congresso Mundial, em Cracóvia, Zamenhof renuncia a todas as funções oficiais no movimento
Maio de 1913Deklaracio pri Homaranismo, dez pontos, sob o seu próprio nome
Início de 1917Uma última versão vai para um tradutor na Alemanha; Zamenhof morre em 14 de abril

Zamenhof percebeu que Hilelismo soava judaico demais e que o prefácio estava preso demais à Rússia. O folheto de 1906 diz que o hilelismo dizia respeito a um só grupo, enquanto o homaranismo dizia respeito a todos os povos e religiões, e o define como celado al pura homeco kaj al absoluta intergenta justeco kaj egaleco – “uma busca da pura humanidade e da justiça e igualdade absolutas entre os povos”.

Quais são os princípios do homaranismo?

A exposição curta mais completa é a Deklaracio pri Homaranismo de 1913, com um formulário de resposta para leitores que quisessem constar como homaranoj. Em resumo:

PontoIdeia
IA humanidade é uma só família; sua divisão em povos hostis e em comunidades étnico-religiosas está entre as suas maiores desgraças.
IIJulgar as pessoas apenas pelo valor pessoal e pelos atos; perseguir alguém por etnia, língua, religião ou classe social é barbárie.
III–IVUm país pertence igualmente a todos os seus habitantes, e os Estados deveriam ter nomes geograficamente neutros, não étnicos.
VNa vida privada, use qualquer língua e religião; entre as comunidades, use uma língua e uma ética neutras.
VI–VIIIQuando perguntarem “a que povo você pertence?”, responder Mi estas Homarano – “Eu sou um homarano”. Patriotismo é servir a todos os conterrâneos, nunca odiar os de fora.
IXA língua é um meio, não um objeto sagrado. Além da sua própria língua, conheça uma neutra.
XA religião deve ser sincera, não herdada. “Deus” é a Força suprema e incompreensível, que cada um pode interpretar livremente; a regra central é tratar os outros como você deseja que o tratem.

Duas frases carregam o núcleo. Mi estas homo, kaj la tutan homaron mi rigardas kiel unu familion. – “Sou um ser humano, e vejo toda a humanidade como uma só família.” E: Mi vidas en ĉiu homo nur homon. – “Em cada pessoa vejo apenas uma pessoa.”

O texto de 1906 era mais longo: doze pontos, “templos homaranistas” onde pessoas de religiões diferentes se encontrariam, nomes como Peterburgio para a Rússia, e o esperanto citado como a língua neutra. Em 1913 Zamenhof abandonou os templos e a lista de nomes de países, acrescentou as comunidades de livres-pensadores (liberkredaj, que não acreditam em nenhuma religião revelada existente) e já não citava o esperanto.

O homaranismo era a mesma coisa que o esperanto?

Não, e Zamenhof insistia na diferença. A Declaração de Boulogne, aceita em 9 de agosto de 1905, diz: Ĉiu alia ideo aŭ espero, kiun tiu aŭ alia esperantisto ligas kun la Esperantismo, estos lia afero pure privata. – “Qualquer outra ideia ou esperança que este ou aquele esperantista associe ao Esperantismo será assunto puramente privado dele.” As opiniões do criador não obrigam ninguém; só o Fundamento obriga. Ele já havia renunciado a todos os direitos pessoais sobre a língua no Unua Libro de 1887.

O prefácio de 1913 repete isso. O esperanto significa neutralidade total, e a sua “ideia interna” é apenas um vago sentimento de fraternidade, enquanto o homaranismo é um programa político e religioso definido, mian kredon pure privatan – “minha crença puramente privada”. Ele previu que os inimigos do esperanto o usariam como arma.

Como os esperantistas reagiram?

Mal. Korĵenkov relata que os não judeus não gostaram do nome talmúdico, os ateus acharam o texto religioso demais, os crentes o acharam herético, e os absorvidos pelo conflito de classes o consideraram politicamente equivocado. Louis de Beaufront o atacou na L'Espérantiste. Zamenhof respondeu à crítica de um padre escrevendo que os homaranoj não queriam uma nova religião, apenas uma ponte entre as existentes.

Dois apoiadores franceses próximos, Émile Javal e Hippolyte Sebert, o aconselharam a esconder a autoria e, antes do congresso de 1906 em Genebra, o convenceram a cortar do discurso a parte que ligava a “ideia interna” ao homaranismo (Korĵenkov). Durante algum tempo ele falou apenas da “ideia interna”.

Que congresso Zamenhof planejou?

Ele queria uma reunião sobre uma religião humana neutra para pessoas que haviam deixado as fés herdadas, primeiro por volta do décimo Congresso Mundial, em Paris, em agosto de 1914. Os organizadores parisienses temeram a imprensa nacionalista francesa e recusaram. Depois a guerra cancelou o congresso de Paris.

Em 9 de setembro de 1914 ele pediu ao esperantista suíço Friedrich Uhlmann que organizasse na Suíça, em 1915, um congresso para todos os que aspiravam à unidade da humanidade (Korĵenkov). Segundo Edmond Privat, a circular de uma reunião preparatória menor citava dezembro de 1916, depois agosto de 1917 e, por fim, “depois do fim da guerra”. Nada aconteceu; Zamenhof morreu em 14 de abril de 1917.

O que aconteceu com o homaranismo depois de Zamenhof?

Não virou um movimento. Poucos leitores assinaram o formulário de adesão, observa Privat; segundo a Wikipédia em esperanto, muitos pacifistas simpatizavam com a ideia. Sua filha caçula, Lidia Zamenhof (1904–1942), divulgou o homaranismo ao lado do esperanto e, a partir de cerca de 1925, a fé bahá'í; veja Zamenhof para o destino dela. Os historiadores ainda estudam a doutrina, em especial Korĵenkov (Homarano, 2009) e Christer Kiselman. Outros laços entre o esperanto e a fé, como o esperanto e o espiritismo no Brasil, cresceram de forma independente.

Por que o homaranismo é criticado?

  • Língua e religião demais. Korĵenkov diz que Zamenhof, criado na Rússia multilíngue, deixou de ver que a Europa Ocidental era em grande parte monolíngue e quase não pesou fatores políticos, econômicos e psicológicos.
  • Classe. Ernest Drezen (1929) argumentou, de um ponto de vista marxista, que ele ignorava o conflito de classes; “ou classe social” só foi acrescentado ao texto em 1913.
  • Detalhes impraticáveis. Privat diz que o próprio Zamenhof abandonou os países rebatizados por serem inviáveis.
  • Tensão nos objetivos. Em um texto escrito em 1910 para o Congresso Universal de Raças de 1911, Zamenhof defendeu que o ódio entre os povos só desapareceria quando a humanidade compartilhasse uma língua e uma religião, enquanto os povos manteriam as suas em casa. Kiselman lê as suas dúvidas como um conflito entre salvar os judeus e unir a humanidade.
  • Risco para o esperanto. Javal e Sebert temiam uma divisão no movimento. Para as críticas à própria língua, veja críticas ao esperanto; para a história mais ampla, a história do esperanto.

Perguntas frequentes

O que é o homaranismo?

A filosofia ética e religiosa de Zamenhof sobre a unidade da humanidade: todos os povos iguais, pessoas julgadas por seus atos, uma língua neutra entre as comunidades. Desenvolveu-se a partir do Hilelismo (1901) entre 1906 e 1917.

O homaranismo é uma religião?

Zamenhof o chamou de programa político e religioso, e o Reta Vortaro de projeto de uma religião neutra. Ele negava querer substituir as religiões existentes: as pessoas deveriam manter a sua e acrescentar uma ética neutra.

O homaranismo é a mesma coisa que a “ideia interna” do esperanto?

Não. A “ideia interna” é uma vaga esperança de fraternidade que muitos esperantistas sentem. Em 1913 Zamenhof escreveu que o homaranismo é um programa preciso e privado, que não faz parte do esperanto.

O congresso de 1915 aconteceu?

Não. Zamenhof o pediu em setembro de 1914, mas a guerra o tornou impossível. Planos posteriores foram adiados para 1916 e 1917, e ele morreu em abril de 1917.

Hoje existem homaranoj?

Hoje não há um movimento organizado, embora os escritos de Zamenhof sobre o tema ainda sejam estudados.

Fontes

Se a Esperantopedia foi útil para você, pode apoiá-la.