Sobre o esperanto
Academia de Esperanto: o Fundamento e as palavras oficiais
A Academia guarda o Fundamento imutável de 1905, acrescenta palavras oficiais e orienta o uso – mas não pode obrigar ninguém a falar de determinada maneira.
A Academia de Esperanto (Akademio de Esperanto) é um órgão independente de especialistas em língua que zela pelo Fundamento de Esperanto de 1905 e decide quais radicais novos se tornam oficiais. Começou como o Comitê da Língua (Lingva Komitato), criado no primeiro Congresso Mundial de Esperanto, em Boulogne-sur-Mer, em 1905, e tem o nome atual desde 1948. Em junho de 2026 tinha 43 membros e 9 correspondentes. Ela aconselha e recomenda; não pode punir ninguém pelo modo como fala.
O que a Academia de Esperanto faz?
O seu estatuto lhe dá dois objetivos: preservar e proteger os princípios fundamentais do esperanto e acompanhar o desenvolvimento da língua. Na prática, ela:
- decide questões de uso, como o que significa uma forma gramatical ou como se forma uma palavra;
- acrescenta radicais ao vocabulário oficial por meio dos Oficialaj Aldonoj (Acréscimos Oficiais);
- compila um dicionário com definições em esperanto e aprova glossários técnicos;
- responde a perguntas do público por meio do seu serviço de consulta de língua (Lingva Konsultejo), fundado em 1999.
A Academia tem sede legal nos Países Baixos e se mantém com uma subvenção da Associação Universal de Esperanto e com doações. Para os demais órgãos do movimento, veja as organizações esperantistas.
Como a Academia é organizada?
A Academia tem cerca de 45 membros, que cumprem mandatos de nove anos, trabalham em seções especializadas e votam abertamente as questões de língua. O estatuto fixa as regras.
| Característica | Como funciona |
|---|---|
| Membros | 45 “em princípio”; 43 membros e 9 correspondentes em junho de 2026 |
| Mandatos | 9 anos, com reeleição; um terço das cadeiras é eleito a cada 3 anos (2019, 2022, 2025) |
| Candidatos | Propostos por pelo menos 5 membros que representem pelo menos 3 línguas nacionais; escolhidos por voto secreto, com maioria absoluta dos votantes |
| Correspondentes | Pessoas eminentes que emprestam o nome ao trabalho; sem voto |
| Seções | Oito em março de 2025: Língua Especializada, Gramática, Dicionário Geral, Consulta de Língua, Literatura, Pronúncia, Verificação de Materiais Didáticos e Interkonsilejo; mais comissões de História e de Comunicação |
| Decisões | Votos abertos. Questões de uso: maioria absoluta dos votantes, se dois terços dos membros votarem. Um novo item da língua ou a alteração de uma decisão anterior exige dois terços de todos os membros |
O linguista indiano Probal Dasgupta, presidente desde 2016, morreu em 1º de junho de 2026. A página da diretoria da Academia, atualizada em outubro de 2026, indica Jesper Jacobsen como presidente.
O que é o Fundamento de Esperanto?
O Fundamento de Esperanto é o livro que Zamenhof publicou em 1905 para fixar o núcleo da língua. Tem quatro partes: um prefácio (Antaŭparolo), a gramática (Gramatiko) com as 16 regras, os exercícios (Ekzercaro) e o dicionário Universala Vortaro. A gramática e o dicionário trazem traduções em cinco línguas: francês, inglês, alemão, russo e polonês. A maior parte do conteúdo vem das obras anteriores de Zamenhof, sobretudo do Unua Libro de 1887.
Em 9 de agosto de 1905, a Declaração de Boulogne, adotada no primeiro congresso, indicou o Fundamento como a única base obrigatória para todos os esperantistas. Ele não pode ser alterado, e nenhuma pessoa, nem mesmo Zamenhof, tem autoridade legislativa sobre a língua. O prefácio já previa que alguma instituição com autoridade acrescentaria palavras novas mais tarde. Esse é o papel da Academia.
A Academia conta 2.768 elementos fundamentais (radicais, afixos, palavrinhas e terminações): 2.755 mais 13 cujo status fundamental ela confirmou em 1974. As traduções antigas contêm erros que permanecem no texto intocável. O Comitê da Língua preparou correções em 1906–1913 e as publicou em 1922–1923 como as Akademiaj Korektoj; o dicionário da Academia as usa.
O que são os Acréscimos Oficiais (1OA–10OA)?
Um Acréscimo Oficial (Oficiala Aldono, abreviado OA) é uma lista de radicais que o Comitê da Língua ou a Academia acrescenta ao Universala Vortaro. Os seis primeiros foram decisões do Comitê. “Oficial” não significa “fundamental”: a Academia escreve que um radical oficial tem o caráter de uma forte recomendação, porque só os elementos do Fundamento original são fundamentais.
| Acréscimo | Ano | Elementos novos | Observação |
|---|---|---|---|
| 1OA | 1909 | 805 | |
| 2OA | 1919 | 587 | |
| 3OA | 1921 | 203 | |
| 4OA | 1929 | 118 | |
| 5OA | 1934 | 8 | |
| 6OA | 1935 | 21 | |
| 7OA | 1958 | 31 | |
| 8OA | 1974 | 200 | Confirmou também 13 elementos mais antigos como fundamentais; publicado com o BRO |
| 9OA | 2007 | 209 | Definições só em esperanto |
| 10OA | 2023 | 420 radicais | Mais 832 palavras e termos de várias palavras; sobretudo geografia; definições só em esperanto |
Três decisões isoladas acrescentaram um elemento cada: analog- (1923), mis- (1929) e end- (1953). O 10º Acréscimo foi aprovado em 24 de setembro de 2023: votaram 41 dos 45 membros, com 32 a favor, 4 contra e 5 abstenções. Ele tornou oficiais todos os nomes de países da lista de 2009 que ainda não eram, mais o Sudão do Sul, e pela primeira vez nomes de várias palavras, como la Ruĝa Maro – “o Mar Vermelho”.
O vocabulário oficial em números
O dicionário da Academia, o Akademia Vortaro, conta 4.953 elementos oficiais até o 9º Acréscimo (2007): 2.768 fundamentais e 2.185 oficiais (1.776 de 1909–1958, mais 200 e 209). Desses, 4.758 precisam de terminação (radicais e afixos), 184 são palavrinhas independentes e 11 são terminações gramaticais. Somando os 420 radicais de 2023, chega-se a cerca de 5.373 – soma nossa, porque a tabela de estatísticas da Academia para em 2007. A nossa lista de radicais oficiais tem 5.328, porque conta um radical por verbete marcado como oficial no dicionário ReVo, e não os elementos da Academia.
Esses números são uma pequena parte do vocabulário. A maioria das palavras do dia a dia e das modernas não está na lista oficial, mas é esperanto normal: veja a formação de palavras. Outros projetos contam de outro modo; a página de estatísticas do dicionário ReVo, por exemplo, lista 860 radicais para o primeiro Acréscimo, em vez de 805.
O que é o Baza Radikaro Oficiala (BRO)?
O Baza Radikaro Oficiala (“Radicais Básicos Oficiais”), ou BRO, é a classificação do vocabulário central feita pela Academia em nove grupos de frequência. A Academia trabalhou nele a partir de 1966 e o publicou nos Aktoj de la Akademio II (1968–1974), junto com o 8º Acréscimo.
Método. A Academia comparou estudos anteriores de frequência de palavras: S. Rublev (1927, 100.000 palavras de texto corrido), L. Blaas (50.000 palavras), três listas de V. Setälä, uma lista de 1956 de P. Bovet e H. Ith e duas listas do Français fondamental francês. Um elemento presente em todas as listas ia para o grupo 1, um que faltasse em uma só lista ia para o grupo 2, e assim por diante até o grupo 9, para os elementos encontrados em uma única lista. O resultado bruto foi de 2.537 elementos; depois das correções, os grupos finais têm 2.461 (soma nossa das contagens de cada grupo da Academia).
Mostrar os dados
| Grupo | Elementos | Total acumulado |
|---|---|---|
| 1 | 179 | 179 |
| 2 | 101 | 280 |
| 3 | 121 | 401 |
| 4 | 151 | 552 |
| 5 | 154 | 706 |
| 6 | 241 | 947 |
| 7 | 294 | 1.241 |
| 8 | 467 | 1.708 |
| 9 | 753 | 2.461 |
O grupo 1 não tem nenhum radical comum de substantivo ou verbo. É formado pelas 11 terminações, pelos sufixos dos particípios, pelos pronomes, pelos numerais, pelas palavras da tabela, como kio e tiu, por afixos comuns e por palavrinhas como kaj e de. A Academia chama a lista de uma ajuda, e não de uma lei, e sugere que um manual possa incluir, por exemplo, os quatro primeiros grupos. As listas de origem datam de 1927–1956, de modo que o BRO mostra uma frequência antiga; para contagens modernas, veja as 100 palavras mais comuns do esperanto. O Akademia Vortaro pode ser pesquisado por grupo do BRO (BRO1–BRO9).
Quais decisões da Academia são mais importantes?
| Ano | Decisão |
|---|---|
| 1967, 1989 | Os particípios passivos expressam aspecto, como no uso de Zamenhof: -ata uma ação em andamento, -ita uma ação concluída (1967: 26 de 31 votantes). Veja os particípios. |
| 1982, 2007 | Não é preciso reformar a ortografia. Quando os diacríticos adequados não estão disponíveis e o sistema do h do Fundamento não serve, outros substitutos não são “contra o Fundamento”, desde que sejam apenas um recurso técnico, não visem reformar a ortografia e não causem confusão. O sistema x é o mais conhecido, embora a Academia não cite nenhum. |
| 2003 | A Academia cancelou a sua decisão de 1988 de que Koreujo ia contra o Fundamento. Koreo, Koreujo e Koreio são todos permitidos, assim como Egipto, Egiptujo e Egiptio (30 votos a favor, 2 contra, 1 abstenção). |
| 2009 | Uma lista de nomes de países recomendados substituiu a lista de 1989. É uma recomendação, e não uma regra obrigatória nem um acréscimo oficial. Os países com nome de um povo podem usar -ujo ou -io (Francujo ou Francio); alguns usam também -lando (Pollando). |
| 2023 | Declaração sobre a letra ŭ (9 de abril; 86% dos 43 votantes): evitar o ŭ em radicais novos, exceto em aŭ e eŭ; usar v ou u ao adaptar palavras estrangeiras. |
| 2026 | Declaração sobre tiel nomata (7 de abril; 28 de 40 votantes a favor): a expressão tem dois usos tradicionais, ambos encontrados no tempo de Zamenhof. |
Quais são os limites da Academia?
Ela aconselha. O artigo 22 do estatuto permite decisões que são apenas recomendações, e a Academia afirma que não pode nem quer obrigar o uso da língua. As respostas do seu serviço de consulta de língua são recomendações, e não decisões.
O uso decide primeiro. O gramático Bertilo Wennergren observa no PMEG que radicais comuns novos entram facilmente na língua, enquanto afixos novos raramente têm sucesso. Uma palavra que falta na lista oficial não é um erro.
É lenta e parcial. Passaram-se dezesseis anos entre o 9º e o 10º Acréscimos (2007–2023), e também entre o 7º e o 8º (1958–1974). O 9º e o 10º não dão traduções, de modo que os aprendizes ainda precisam de um dicionário bilíngue; a Academia argumenta que a língua é madura o bastante para se definir a si mesma.
A votação é contestada. Em 1953, o escritor Petro Stojan argumentou que votar problemas de língua deixa muitos não especialistas anularem dois ou três especialistas de verdade. O estatuto acrescenta salvaguardas: as seções preparam relatórios, e a alteração de decisões anteriores exige dois terços de todos os membros. Em 2003, a Academia reverteu a si mesma sobre Koreo e Egipto, o que mostra que as suas decisões podem ser revistas.
A Academia e o português
Quem fala português encontra a Academia por três lados.
- Brasileiros na Academia. Segundo a Wikipédia em português, a lista de membros de 2010 incluía dois brasileiros: o professor Geraldo Mattos e Gersi Alfredo Bays, o fundador da editora Fonto (veja a literatura em esperanto). Segundo a Vikipedio, Mattos (1931–2014), filólogo e professor em Curitiba, autor de mais de trinta livros sobre o ensino do português e sobre linguística, foi membro da Academia desde 1970 e a presidiu de 1998 a 2007. Para a lista atual, consulte a página de membros da Academia.
- O Fundamento não tem versão portuguesa oficial. A gramática e o Universala Vortaro de 1905 trazem traduções em francês, inglês, alemão, russo e polonês, e o português não está entre elas. Por isso a base oficial da língua não chega diretamente a quem só lê português.
- Os Acréscimos recentes não têm traduções. O 9º e o 10º Acréscimos definem os radicais só em esperanto. Quem estuda a partir do português continua a precisar de um dicionário bilíngue; veja os dicionários de esperanto.
No Brasil, a Liga Brasileira de Esperanto (BEL) coordena o movimento e é uma associação independente da Academia; veja as organizações esperantistas.
Perguntas frequentes
Quem decide o que é esperanto correto?
O Fundamento de 1905 é a única autoridade obrigatória, e a Academia o interpreta e recomenda o uso. Além disso, a correção vem do bom uso por falantes competentes, com obras de referência como a gramática PMEG.
A Academia pode mudar o Fundamento?
Não. A Declaração de Boulogne tornou o Fundamento imutável em 9 de agosto de 1905. A Academia só pode acrescentar radicais por meio dos Acréscimos Oficiais e recomendar o uso; mesmo erros de tradução conhecidos permanecem no texto e são corrigidos em documentos à parte.
Quantos radicais oficiais o esperanto tem?
A Academia conta 4.953 elementos oficiais até 2007 (2.768 fundamentais, 2.185 dos Acréscimos Oficiais). Os 420 radicais de 2023 elevam o total a cerca de 5.373 elementos, quase todos radicais ou afixos que recebem terminação.
Uma palavra está errada se não está no dicionário da Academia?
Não. A lista oficial é um núcleo, e não um vocabulário completo. Muitas palavras padrão dos grandes dicionários não são oficiais, e a própria Academia chama até os seus radicais oficiais de fortes recomendações, e não de ordens.
A Academia permite o sistema x?
Na prática, sim, como substituto técnico. A declaração de 2007 não cita o sistema x, mas permite trocar as letras com diacríticos por outros caracteres quando isso for só um recurso técnico, não visar a uma reforma ortográfica e não causar confusão.
Existe um brasileiro na Academia de Esperanto?
Houve: segundo a Wikipédia em português, a lista de membros de 2010 incluía os brasileiros Geraldo Mattos e Gersi Alfredo Bays. A lista atual está na página de membros e correspondentes da Academia.
Fontes
- Akademio de Esperanto – Statuto
- Akademio de Esperanto – Historio de la Akademio
- Akademio de Esperanto – Membroj kaj korespondantoj (junho de 2026)
- Akademio de Esperanto – Sekcioj kaj Komisionoj (março de 2025)
- Akademio de Esperanto – Estraro kaj adreso (outubro de 2026)
- Akademio de Esperanto – Omaĝo al Probal Dasgupta
- Akademio de Esperanto – Lingva Konsultejo
- Akademio de Esperanto – Akademia Vortaro: Klarigoj (estatísticas)
- Akademio de Esperanto – Fundamento
- Akademio de Esperanto – Naŭa Oficiala Aldono (2007)
- Akademio de Esperanto – Deka Oficiala Aldono (2023)
- Akademio de Esperanto – Baza Radikaro Oficiala (Aktoj II, 1968–1974)
- Akademio de Esperanto – Pri apartaj teknikaj bezonoj rilate al niaj alfabeto kaj ortografio (2007)
- Akademio de Esperanto – Pri la vortoj KOREO kaj EGIPTO (2003)
- Akademio de Esperanto – Listo de Rekomendataj Landnomoj (2009)
- Akademio de Esperanto – Pasivaj participoj (1967, 1989)
- Akademio de Esperanto – Deklaro pri la litero ŭ (2023)
- Akademio de Esperanto – Pri la esprimo "tiel nomata" (2026)
- Vikipedio – Akademio de Esperanto
- Vikipedio – Oficialaj aldonoj
- Vikipedio – Baza Radikaro Oficiala
- Vikipedio – Fundamento de Esperanto
- Vikipedio – Akademiaj Korektoj
- Vikipedio – Geraldo Mattos
- Wikipédia (pt) – Academia de Esperanto
- Wikipédia (en) – Akademio de Esperanto
- Wikipédia (en) – Fundamento de Esperanto
- Wikipédia (en) – Declaration of Boulogne
- Wikipédia (en) – Probal Dasgupta
- PMEG – Neoficialaj afiksoj
- ReVo – Statistiko
- Libera Folio – 10-a Oficiala Aldono al la Universala Vortaro
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