Frases
Gíria do esperanto: krokodili, kabei, mojosa e mais
As palavras informais, as piadas e as abreviações que os falantes de esperanto usam e que os cursos para iniciantes deixam de fora.
A gíria do esperanto é o vocabulário informal que os próprios falantes criaram: krokodili “falar outra língua entre esperantistas”, kabei “deixar o movimento”, samideano “colega esperantista” e mojosa “legal”. Os cursos raramente ensinam essas palavras, mas você as encontra em congressos, em grupos e no chat. A maioria é montada com partes de palavra regulares como -ul-, -ism- e -aĵ- (veja os sufixos), então muitas vezes dá para adivinhar. Os guias de pronúncia mostram a sílaba tônica em maiúsculas, já com as letras do português brasileiro: tch = ĉ, dj = ĝ, ch = ŝ, j = ĵ, i = j do esperanto (veja o alfabeto).
Palavras sobre a comunidade
| Esperanto | Significado | Origem / observação |
|---|---|---|
| Esperantujo (es-pe-ran-TU-iô) | a “terra” do esperanto: a comunidade e todos os lugares onde ela se reúne, de congressos a grupos na internet | Esperanto + -ujo, como nos nomes de países (Francujo). Também se escreve Esperantio. Não tem território. |
| samideano (sa-mi-de-A-nô) | colega esperantista; uma forma amistosa de tratar alguém | sama “mesmo” + ideo “ideia” + -ano “membro”. Zamenhof a usou em discursos de congressos. |
| esperantisto (es-pe-ran-TIS-tô) | quem conhece e usa o esperanto | Alguns preferem esperantoparolanto “falante de esperanto”, porque -isto pode sugerir profissão ou ideologia. |
| verdulo (ver-DU-lô) | esperantista fervoroso | verda “verde” + -ulo “pessoa”; o verde é a cor do movimento. Também quer dizer membro de um partido verde. |
| denaskulo (de-nas-KU-lô) | falante nativo: quem aprendeu o esperanto em casa, ainda criança | denaska “de nascença” + -ulo. Veja falantes nativos. |
| interna ideo (in-TER-na i-DE-ô) | “ideia interna”: a esperança de que o esperanto aproxime os povos como irmãos | Expressão de Zamenhof, usada em discursos, por exemplo no congresso de Cracóvia, em 1912. |
Palavras sobre o uso da língua
| Esperanto | Significado | Origem / observação |
|---|---|---|
| krokodili (kro-ko-DI-li) | falar uma língua que não é o esperanto entre esperantistas, em geral a língua materna que vocês têm em comum | krokodilo “crocodilo” + -i. A origem é incerta; uma história fala de um crocodilo de madeira nas aulas de Andreo Cseh. |
| aligatori, kajmani, gaviali | primos mais raros. Aligatori: outra língua que só alguns dos presentes falam como língua materna. Kajmani: uma que nenhum dos presentes fala como língua materna. Gaviali: usar o esperanto onde outra língua serviria melhor | Mais répteis, copiando krokodili. As definições exatas variam. |
| kabei (ka-BE-i) | deixar o movimento esperantista depois de ter sido ativo nele | Do pseudônimo Kabe de Kazimierz Bein; veja abaixo. |
| volapukaĵo (vo-la-pu-KA-jô) | algaravia; algo que você não consegue entender | Volapuko + -aĵo “coisa”. Uma piada com o volapuque (Volapük), uma língua planejada anterior (1879) que concorria com o esperanto. |
| bonantagulo (bo-nan-ta-GU-lô) | palavra de gozação para quem só sabe do esperanto algumas saudações | bonan tagon + -ulo. Pode soar maldoso, então use com cuidado. |
| mojosa (mo-IO-sa) | legal, ótimo, estiloso; ouvida sobretudo entre os mais jovens | Criada em 2003 num seminário de jovens na Hungria a partir das primeiras letras de modern-jun-stil “moderno-jovem-estilo”: M, J, S, lidas como sílabas: mo-jo-so. Também mojosega “muito legal”. |
Palavras sobre os objetivos do movimento
| Esperanto | Significado | Origem / observação |
|---|---|---|
| fina venko (FI-na VEN-kô) | “vitória final”: a esperança de que um dia a maioria das pessoas fale o esperanto como segunda língua | Costuma ser escrita Fina Venko. |
| finvenkismo, finvenkisto (fin-ven-KIS-mô, fin-ven-KIS-tô) | trabalhar por esse objetivo; quem tem essa meta | fina venko + -ismo “doutrina” ou -isto. |
| raŭmismo (rau-MIS-mô) | a visão de que o esperanto vale agora, como língua viva e comunidade cultural, e não só como futura língua mundial | Do Manifesto de Rauma, escrito em 1980 em Rauma, na Finlândia. Em geral posto em contraste com o finvenkismo; veja as críticas. |
| zamenhofa (za-men-HO-fa) | de Zamenhof; de acordo com o uso e os exemplos do próprio Zamenhof | O PMEG chama de zamenhofaj os exemplos que tira dos textos dele. |
Eventos e lugares
| Esperanto | Significado | Origem / observação |
|---|---|---|
| gufujo (gu-FU-iô) | um café noturno tranquilo em eventos de esperanto: velas, chá em vez de álcool, sem fumar, com música ou leituras | gufo “coruja”, para os notívagos, + -ujo. O primeiro foi feito no fim de 1995, num seminário de Ano-Novo de jovens na Alemanha. |
| UK (u-KO) | o Congresso Mundial de Esperanto, Universala Kongreso | Veja o Congresso Mundial de Esperanto. |
| IJK | o Congresso Internacional da Juventude, Internacia Junulara Kongreso | Organizado pela TEJO; o primeiro foi em 1938, em Groet, nos Países Baixos. |
| Pasporta Servo (pas-POR-ta SER-vô) | “Serviço de Passaporte”: uma lista de anfitriões que oferecem cama grátis a viajantes que falam esperanto | Desde 1974, com 40 anfitriões no início. Veja o Pasporta Servo. |
Abreviações na escrita e no chat
| Esperanto | Significado | Origem / observação |
|---|---|---|
| ktp, k.t.p. | “e assim por diante” | kaj tiel plu. O PMEG escreve com pontos. |
| ekz. | “por exemplo” | ekzemple. |
| k.a., k.s. | “e outros”, “e semelhantes” | kaj aliaj, kaj similaj. |
| t.e. | “isto é” | tio estas. |
| bv, bv. | “por favor” | bonvolu, em mensagens e no chat. |
| s-ro, s-ino, d-ro | “Sr.”, “Sra.”, “Dr.” | sinjoro, sinjorino, doktoro. |
Saudações informais como Sal!, Ĉaŭ! e Ĝis! estão em saudações. Teclados sem ĉ ĝ ĥ ĵ ŝ ŭ explicam por que os chats costumam digitar cx, gx e assim por diante; veja o sistema x.
Quem foi Kabe, e por que o nome dele virou verbo?
Kabe era o pseudônimo de Kazimierz Bein (1872–1959), um oftalmologista polonês e um dos principais tradutores e estilistas do início do esperanto. O nome é a forma polonesa de dizer as iniciais dele, K.B. Ele aprendeu a língua em 1903, ficou famoso em 1904 por traduzir o romance de Sieroszewski La fundo de l' mizero e foi vice-presidente da Academia de Esperanto a partir de 1906. Sua tradução de La Faraono, de Prus, veio em 1907.
Em 1911 ele deixou o movimento de repente, sem explicar por quê. Numa entrevista de 1931, disse que a falta de progresso da língua fazia com que ele não a visse mais como a resposta. Os esperantistas criaram kabei a partir do nome dele, e em 1935 o poeta Kálmán Kalocsay escreveu, na Enciklopedio de Esperanto, que a palavra se tornara um símbolo de apostasia.
A gíria em frases
| Esperanto | Português |
|---|---|
| Ni krokodilis la tutan vesperon. | Falamos a nossa própria língua a noite toda. |
| La koncerto estis mojosega! | O show foi muito legal! |
| Tiu instrukcio estas por mi volapukaĵo. | Essa instrução é grego para mim. |
| Ni renkontiĝu en la gufujo post la koncerto. | Vamos nos encontrar no gufujo depois do show. |
| Ĝis, samideanoj! | Até mais, colegas esperantistas! |
Quando usar essa gíria?
- Entre amigos, em eventos e no chat. Na escrita formal, prefira as palavras padrão e as frases básicas.
- Explique a palavra se estiver em dúvida. Muitos falantes mais velhos nunca ouviram mojosa.
- Não policie os outros. A Vikipedio, a Wikipédia em esperanto, observa que repreender iniciantes com Ne krokodilu! pode afastá-los. Trocar de língua por um instante para explicar um ponto de gramática a um iniciante é mais aceito.
O que muda para quem fala português
- O krokodili brasileiro. Num encontro de brasileiros, como o Congresso Brasileiro de Esperanto, krokodili é falar português entre vocês em vez de esperanto. Os falantes desencorajam isso pelo mesmo motivo de sempre: eventos são uma chance rara de praticar.
- O j é “i”. Não leia mojosa e gufujo com o “j” do português: mojosa soa mo-IO-sa e gufujo soa gu-FU-iô. O “j” de “já” é o ĵ, como em volapukaĵo.
- Falsos amigos. Verdulo não tem relação com “verdura”: vem de verda “verde”. O fina de fina venko é “final” (de fino “fim”), e não o “fina” de “linha fina”. E UK se lê u-KO, as letras u e ko, e não tem a ver com o Reino Unido.
- Abreviações conhecidas. Ktp faz o papel do nosso “etc.”, ekz. o de “p. ex.”, t.e. o de “isto é” e bv o do “pfv” do chat brasileiro. As formas de tratamento s-ro, s-ino e d-ro levam hífen e minúscula, ao contrário de “Sr.”, “Sra.” e “Dr.”.
Perguntas frequentes
O que significa krokodili em esperanto?
Significa falar uma língua que não é o esperanto entre esperantistas, em geral a língua materna que vocês têm em comum. Os falantes desencorajam isso porque os eventos são uma chance rara de praticar, e porque pode deixar outras pessoas de fora e dar uma má impressão a quem é de fora.
O que significa kabei?
Kabei significa deixar o movimento esperantista depois de ter sido um membro ativo. Vem de Kabe, o pseudônimo de Kazimierz Bein, um importante tradutor que saiu em 1911.
O que significa mojosa?
Mojosa significa “legal”. Foi criada em 2003 a partir das primeiras letras de modernjunstila “moderno-jovem-estilo” e hoje consta do dicionário online ReVo.
O que é um gufujo?
Um gufujo é um café noturno tranquilo, à luz de velas, em eventos de esperanto, com chá em vez de álcool. O primeiro foi feito no fim de 1995; gufo quer dizer “coruja”.
O que é Esperantujo?
Esperantujo é o nome informal do mundo que fala esperanto, de sua comunidade e de seus pontos de encontro, tratado como se fosse um país. Também se diz Esperantio.
Fontes
- ReVo: krokodili, Kabe, kabei, mojosa, samideano, interna ideo, -uj (Esperantujo), verdulo, denaskulo, Fina Venko, finvenkismo, raŭmismo, Volapuko, zamenhofa, gufo, sinjoro, doktoro (em esperanto)
- PMEG: UJ, IST, ISM, AĴ, UL, AN, Simboloj kaj mallongigoj (em esperanto)
- Vikipedio: Krokodili, Kabei, Kazimierz Bein, Samideano, Gufujo, Mojosa, Fina Venko, Raŭmismo, Interna ideo, Esperantistoj, Idiomaĵoj en Esperanto, Esperanta slango, Internacia Seminario, Internacia Junulara Kongreso, Bv (em esperanto)
- Wikipedia: Kazimierz Bein, Esperanto culture, Esperantujo (em inglês)
- Wiktionary: krokodili, kabei, mojosa, mojosega, gufujo, samideano, volapukaĵo, bonantagulo, verdulo, denaskulo, fina venko, finvenkismo, interna ideo, ktp, bv, s-ro, d-ro (em inglês)
- Felix Zesch (um dos criadores): Mojosa (em esperanto)
- Liga Brasileira de Esperanto, sobre o Congresso Brasileiro de Esperanto
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